INTRODUÇÃO
O protestantismo brasileiro, desde a sua chegada ao Brasil, passou por diversas metamorfoses inicialmente caracterizadas pelos valores culturais dos imigrantes europeus. A primeira iniciativa aconteceu no final de 1555 com a tentativa de fundação da França Antártica por huguenotes – assim eram chamados os protestantes franceses. O outro procedimento de evangelização aconteceu por meio dos holandeses no Nordeste, no período de 1630 a 1654, mas que também não conseguiu o intento, pelo menos em termos da totalidade do território brasileiro. Depois dessas iniciativas isoladas, as portas brasileiras se fecharam durante mais de 150 anos para o avanço desses religiosos.
Dois acontecimentos históricos foram fundamentais no processo de mudança da relação do Brasil com os protestantes: primeiro, a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808 e o Decreto assinado em 1810, ambos portadores de “boas novas” aos protestantes, na medida em que concediam maiores liberdades para a participação desses religiosos; o outro fato histórico importante foi a independência do Brasil em 1822, que manteve aberta a possibilidade de liberdade religiosa aos imigrantes estrangeiros, mas que também abria espaços aos brasileiros que assim desejassem. É claro que essa liberdade de culto ainda era restrita, uma vez que eram proibidos o proselitismo, a construção de templos em forma de igreja e o falar mal do catolicismo, que era constitucionalmente a religião oficial do Estado brasileiro.
O século XIX foi marcado pela chegada dos protestantes estrangeiros: americanos, suecos, dinamarqueses, escoceses, franceses e especialmente alemães e suíços de tradição luterana e reformada, que fundaram cidades em regiões serranas do Rio de Janeiro e, na sequência, no Estado do Rio Grande do Sul. Esse protestantismo foi denominado de “protestantismo de imigração”. A partir da segunda metade desse mesmo século, assistimos à entrada mais forte desses religiosos, agora por meio de grupos denominacionais, principalmente oriundos dos Estados Unidos e que foram identificados como protestantismo de missão: congregacionais, presbiterianos, luteranos, metodistas, adventistas e batistas.
Mesmo considerando os avanços nas liberdades religiosas desse período, não há como olvidar a diminuta presença dos protestantes entre os brasileiros na primeira metade do século XIX. Na segunda metade desse mesmo século, contudo, seu crescimento foi significativo, embora as relações com a religiosidade oficial ainda fossem limitantes para o proselitismo e para a consequente conversão da gente da própria terra – afirma-se que até 1822 não se contava um único brasileiro convertido à nova fé. Mesmo assim, é possível perceber, historicamente, o crescimento do número de igrejas e de denominações, como também do número de fiéis.
A partir do século XX, assistimos a uma nova etapa do protestantismo no Brasil, caracterizada pela presença dos pentecostais originários dos Estados Unidos, que, embora o grupo tivesse essa origem, os missionários fundadores eram de origem europeia (Suécia e Itália). Os primeiros missionários pentecostais vindos ao Brasil na primeira década do século XX foram o italiano Luigi Francescon e os suecos Berg e Vingren, que foram expulsos das suas respectivas igrejas, porque apresentaram uma mensagem considerada nova e demasiadamente explosiva: Luigi Francescon foi expulso de uma igreja Presbiteriana do Brás, em São Paulo, em 1910[1]; e os suecos Berg e Vingren foram expulsos do templo de uma Igreja Batista no Pará[2], em 1911. Essas expulsões geraram, nas primeiras décadas do século XX, os embriões das Igrejas Assembléia de Deus e da Congregação Cristã do Brasil, ambas com crescimento pequeno nas suas respectivas regiões – a primeira no Norte e Nordeste e a segunda na região Sudeste do Brasil. Foram consolidadas em todas as regiões brasileiras[3] somente a partir de 1940 e 1950.
Essa nova onda protestante no Brasil rompia com a denominada racionalidade protestante oriunda do movimento da Reforma do século XVI, não que a prática fosse inovadora, mas rompia com o padrão estabelecido e com a forma de cultuar predominante. Entendiam os pentecostais que o fiel não poderia mais ficar aguardando as ações de Deus para o porvir: o agora passou a ser o momento da ação dos dons espirituais, isto é, Deus age na história, mudando completamente os caminhos até então atribuídos à exclusividade da intervenção humana.
É obvio que os dons espirituais desses grupos se sintetizavam na prática de falar línguas estranhas ou glossolalia. O diferenciador do ethos, aqui entendido como “[...] o tom, o caráter e a qualidade da sua vida, seu estilo e disposições morais e estéticos” (GEERTZ, 1989, p. 103) dos pentecostais em relação aos demais protestantes, como também em relação à população em geral, além do falar línguas estranhas, relacionam-se aos usos e costumes, que eram visíveis nos seguintes aspectos: vestuário bastante discreto e formal, abstenção dos lazeres predominantes e da prática política, pelo entendimento de terem relação com o demônio, e, sobretudo, o comportamento sectário dos seus membros, que preferiam se afastar de relacionamentos mais formais com outros grupos religiosos e com a sociedade em geral. A partir da década de 1940, principalmente a partir da década de 1950, houve uma aceleração do crescimento. A esse respeito há entre os estudiosos o consenso de que esse fenômeno se deu em função do processo mais acelerado de urbanização provocado pelo desenvolvimento industrial.
Se os primeiros grupos de protestantes brasileiros foram tratados como “históricos”, em virtude da vinculação direta com a Reforma deflagrada na Europa por Martinho Lutero, os pentecostais das primeiras décadas do século XX são considerados pela literatura sociológica como pentecostais de primeira onda ou tradicionais (MENDONÇA, 1995 e FRESTON, 1993). Já os pentecostais de segunda onda, de cura divina ou deuteropentecostalismo (MENDONÇA, 1995, FRESTON, 1993 e MARIANO, 1999) organizados no Brasil a partir da década de 1950, apresentados nos parágrafos seguintes, mantiveram aspectos do ethos pentecostal das primeiras décadas, mas evidenciaram, ao contrário da AD e da ICCB, o dom da cura divina.
Os pentecostais de cura divina são representados pelas igrejas: A Igreja do Evangelho Quadrangular, fundada em 1951, O Brasil Para Cristo, fundada em 1955, e Deus é Amor, fundada em 1962. Essas Igrejas resultaram dos trabalhos missionários de evangelistas americanos e, dentre os dons do espírito, havia o destaque maior para o dom de cura divina. Os cultos públicos, como também o marketing do grupo, eram apresentados como instrumentos de cura para todos os males. Entendiam esses religiosos que Deus atendia a todos independente do mal que acometia o fiel na busca por solução de seus problemas. O poder para curar apresentado ou, pelo menos, divulgado pelos fiéis é como o poder simbólico em Bourdieu: “[...] com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (1989, p. 07-08).
A partir da década de 1970, outro grupo protestante pentecostal, classificado como de terceira onda, neopentecostalismo ou pentecostalismo autônomo, emerge no interior do campo religioso brasileiro. O surgimento desse grupo significou uma “continuidade”[4] do protestantismo brasileiro, significando parte do processo de transformação sincrética na religiosidade aqui instalada. As igrejas mais evidenciadas desse período são as seguintes: Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Comunidade Sara a Nossa Terra, Renascer em Cristo e Nacional Palavra da Fé.
Nessas Igrejas os usos e costumes, as regras morais mais rígidas e a glossolalia foram negligenciadas em favor da teologia da prosperidade e dos rituais de cura divina. O grupo passou a ser identificado por meio da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que divulgava os seus “feitos memoráveis” através da mídia televisiva, como também alcançava destaque em função das graves denúncias envolvendo possíveis fraudes nas curas anunciadas e em virtude dos sacos de dinheiro arrecadados nos encontros em estádios de futebol. Essa Igreja também alcançou destaque pelos confrontos violentos com as religiosidades afro-brasileiras e o catolicismo brasileiro, alvos frequentes das críticas dos seus sacerdotes.
A IURD também se caracterizou pelo crescimento exuberante, não apenas no Brasil, mas também em outros países do continente americano e dos continentes europeu e africano. A tônica desse grupo, nas três últimas décadas, foram o crescimento, as polêmicas envolvendo a Igreja e seus líderes, e a notória capacidade de romper com antigos fundadores. Esses antigos fundadores, desprestigiados, rompiam e fundavam uma nova Igreja, que passava a competir com a antiga matriz. Os dois nomes mais importantes desse processo foram: Romildo Ribeiro Soares, conhecido como R. R. Soares, fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus e Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD).
A Igreja Internacional da Graça de Deus foi fundada após o conflito entre R. R. Soares e seu antigo cunhado, lider da Igreja Universal do Reino de Deus. Esse grupo tem explorado com bastante competência a mídia televisiva, em horário nobre e em horários nas madrugadas, todos em TV aberta, gerando repercursão favorável ao crescimento da denominação. Os pontos principais das prédicas apresentadas no programa o “Show da Fé” e nos templos espalhados pelo território brasileiro são: a teologia da prosperidade e os rituais de cura divina.
As Igrejas do Evangelho Quadrangular, Presbiteriana Renovada e Mundial do Poder de Deus[5] representam parte desse processo de pentecostalização. Esta última como parte do movimento neopentecostal iniciado a partir da década de 1970; e as duas primeiras, resultantes ainda do movimento pentecostal iniciado no Brasil a partir da década de 1910 e intensificado com o advento das cruzadas evangelísticas trazidas ao Brasil pelos protestantes americanos na década de 1950.
Os fiéis da Igreja Mundial do Poder de Deus resultaram de cisão ocorrida na década de 1990, quando o então Bispo Valdemiro Santiago rompeu com a sua antiga religiosidade – a Igreja Universal do Reino de Deus –, criando uma nova comunidade de fé, competindo não apenas com o seu grupo de origem, mas, sobretudo, com todos os grupos pentecostais e neopentecostais instalados no Brasil.
Quando afirmo que essas igrejas e os seus fiéis representam mudanças mais intensas no interior do campo religioso brasileiro, defendo a tese de que o pentecostalismo no Brasil pode ser tratado como movimento (MENESES, 2008), ainda em curso, e que não se restringiu aos limites do próprio pentecostalismo, isto é, tem atingido os protestantes históricos, formando igrejas tratadas como renovadas, como também as novas igrejas a partir da década de 1970, classificadas como neopentecostalismo ou pentecostalismo de terceira onda[6].
Esta introdução mais longa serviu como escopo para apresentar a caminhada dos protestantes no Brasil até o nosso objeto de estudo neste projeto[7], ou seja, as Igrejas Presbiteriana Renovada, do Evangelho Quadrangular e a Mundial do Poder de Deus. Essas Igrejas fazem parte do movimento de pentecostalização mais amplo e serão tratadas aqui como portadoras das seguintes características: pouca exigência em relação aos usos e costumes, ou seja, diferente dos grupos pentecostais mais tradicionais, as regras desse grupo não dificultam o uso de roupas e/ou adereços próximos do cotidiano dos fiéis, considerados por outros grupos religiosos protestantes como de caráter pecaminoso; uso sistemático da teologia da prosperidade, ressaltando que o fiel tem que buscar as melhorias de vida da atualidade, descartando a ideia de que o crente adora estar preocupado com as benesses provindas do futuro celestial; e, por último, os rituais de cura divina, presentes em todos os grupos protestantes, mesmo os históricos do século XIX, mas, principalmente, os pentecostais do século XX.
Alguns aspectos aproximam essas Igrejas pentecostais. Os fatores mais importantes a serem destacados são os seguintes, aqui tratados como matriz religiosa[8]: a contemporaneidade dos dons espirituais, o uso frequente do rituais de cura divina, o uso da mídia como instrumento importante no proselitismo da igreja e a teologia da prosperidade. A mensagem midiática se fundamenta na força carismática dos seus principais líderes locais e nacionais. Na IMPD prepondera a figura do Apóstolo Valdemiro Santiago: a sua prédica, o choro durante as mensagens apresentadas, a toalha molhada com o suor do rosto, as orações em montes previamente escolhidos, tudo com o objetivo de convencer o fiel dos milagres apresentados ou daqueles que ainda vão acontecer. No caso das Igrejas do Evangelho Quadrangular e Presbiteriana Renovada, as lideranças são pastores locais, que, após suas chegadas à Cidade de Aracaju, modificaram completamente o perfil de suas comunidades. Hoje estão entre as que mais crescem no Estado de Sergipe.
É possivel afirmar que essas Igrejas têm contribuído para acirrar a disputa simbólica no interior do campo religioso brasileiro, intensificando o uso da mídia televisiva e principalmente o uso dos rituais de cura, gerando manifestações de todos os lados contra essa ação. As três igrejas estão entre as que mais se utilizam da televisão e do rádio na difusão de suas mensagens. Mas, e o que pensam fiéis e sacerdotes acerca dos seus respectivos grupos? E o que dizem a mídia e o senso comum sobre essas Igrejas? E o que dizem os outros grupos protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais sobre a organização, o crescimento e os milagres apresentados nos programas e nos cultos? Essas perguntas fazem parte do nosso problema de pesquisa e procurarei respondê-las por meio da metodologia indicada a seguir, bem como por meio dos conceitos trabalhados ao longo dessa introdução.
[1] Sobre a origem do pentecostalismo no Brasil, ler: CESAR & SAHULL, 1999; ROLIM, 1985; e MARIANO, 1999.
[2] Segundo Mafra (2001), o acesso dos missionários suecos à igreja Batista do Pará aconteceu em virtude do pouco rigor com que os seus membros e obreiros eram admitidos. O entendimento da direção da Igreja Batista, diferente dos critérios estabelecidos pelos missionários presbiterianos dos Estados Unidos aqui no Brasil, era a prevalência da ação do Espírito Santo em detrimento de qualquer outra exigência. Essa falta de “freios” facilitou a aceitação dos missionários suecos.
[3] O crescimento e as características doutrinárias das duas igrejas não foram homogêneos: a Assembléia de Deus cresceu inicialmente pelos Estados das Regiões Norte e Nordeste e a Congregação Cristã do Brasil cresceu principalmente no Estado da Região Sudeste. Quanto às características doutrinárias, apesar de serem pentecostais, são bem peculiares a cada denominação.
[4] Continuidade significa, no entendimento de Meneses (2008), que o protestantismo brasileiro, apesar das grandes transformações ocorridas nos últimos 50 anos, manteve matrizes religiosas comuns a todos os grupos dele decorrente.
[6] Sobre a classificação dos religiosos protestantes em históricos, pentecostais tradicionais, pentecostais de segunda e de terceira onda, ver Campos (1997).
[7] Este projeto é a continuação do projeto iniciado em 2010 (julho) aprovado pelo PIBIC e em curso. Como este pesquisador sentiu a necessidade de comparar os dados dessas três denominações e o projeto do ano passado não contemplou, o refizemos para o atendimento dessas necessidades.
Ricardo Pina Santana (graduado em Ciencias Sociais- UFS e graduando em História-UFS)
Podia me citar como co-autora, já que escrevemos juntos o trabalho aí exposto
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